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29/08/2025

Mário Raínho

Tributo de José Fernandes Castro

Filme duma vida poética

O filme da sua vida
Só ficará definido
Quando o tempo da partida
Se der por concluído;
Aí sim, fará sentido
Ouvir a alma dolente
Cantar doce e tristemente
Os versos que foi gerando;
Lembrando de vez em quando
Que foi grande, que foi gente

Gente de fado e poesia
Gente de mal e de bem
Gente que fez do seu dia
O dia feliz de alguém;
Com defeitos, mas porém
Com o dom da persistência
E o rigor da decência
De valor tão elevado;
Usado por consciência
P'ra fazer lei no seu fado

Senhor realizador
Produtor e guinoista
Dum filme de muito amor
Do qual é protagonista;
Como qualquer bom artista
Que se dá inteiramente
Aos fados que alma sente
Sempre que a voz se levanta;
Viverá naturalmente
No peito de quem o canta



Dia D

José Fernandes Castro

Tudo terá sido inútil
Tudo terá sido em vão
Quando o nosso coração
For vazio, frio e fútil

Porque...
No dia em que se perderem
Todos os sonhos da vida;

No dia em que se vencerem
Os medos da despedida;

No dia em que enternecerem
Os olhos de quem s’espanta;

No dia em que humedecerem
Os lábios d’algUém que canta;

No dia em que acontecerem
Todas as coisas bizarras;

No dia em que não se derem
Novas cordas às guitarras;

No dia em que arrefecerem
Os sentimentos mais nobres;

No dia em que não quiserem
Dar o pão aos que são pobres;

Tudo terá sido inútil
Sem conta, peso ou medida
E o coração da vida
Será cada vez mais fútil

Canoa sempre canoa

Tributo a Carlos do Carmo
José Fernandes Castro

Canoa de vela erguida
Que p’la morte-lei da vida
Foste tomada de assalto
Lágrimas de orvalho triste
São já saudade que existe
No país do Bairro Alto

Canoa de vela panda
Que deliciosa e branda
Na nossa alma te entranhas
E com os olhos enxutos
Consegues ver os teus putos
Junto ao homem das castanhas

Canoa, conheces bem
O mistério que contém
A saudade tua e minha
Adeus parceiro das farras
Silêncio, gemem guitarras
Por morrer uma andorinha



A verdade que me apeteceu

Sinto imensa saudade dos que partiram desta vida
Dos que partiram da minha vida não sinto saudade alguma.

Os que partiram desta vida eram, para mim, uma mais valia
Os que partiram da minha vida, mais valia que nunca nela
tivessem entrado.

Tributo saudosista ao fado

José Fernandes Castro

Para entender melhor o sentimento
Que a poesia dá em rima ou prosa
Queria ter vivido nesse tempo
Do Carlos Conde e do Linhares Barbosa;
E também d’outros poetas de craveira
Radamanto e Gabriel de Oliveira

Para entender melhor o tal talento
Que só tem quem já nasce abençoado
Queria ter vivido nesse tempo
Em que o Farinha era o próprio fado;
O Manuel de Almeida já dizia
Que do fado, não era quem queria

Queria ter vivido nesse tempo
Em que Vieitas, Peres e Gabino
Carlos Ramos, Tristão e Natalino
Cantavam encantando o próprio vento;
Do tempo do António baladeiro
Do Vicente e do Alfredo Marceneiro

Queria ter vivido nesse tempo
Em que Tony, Mourão e Chico Zé
Conseguiam agitar e pôr de pé
O povo, em perfeito encantamento;
Do tempo em que o Max e o fado
Passeavam quase sempre lado a lado

Mas sou do tempo do grande Maurício
Carlos do Carmo, Zel e Pelarigo
Rodrigo que andará sempre comigo
Nesta união de amor, feitiço-vício;
António Rocha e Nuno de Aguiar
Que ao fado muito têm para dar

Sou do tempo do grande Camané
Do Pedro e do Hélder, seu irmão
Do Ricardo Ribeiro, porqu’ele é
Suporte do amor à tradição;
Do Daniel Gouveia, professor
Do Jorge, que já é Comendador

Falando novamente em poesias
O mote com o qual cheguei aqui
Direi que sou do tempo do Ary
De Raínho, de Tiago e João Dias;
Do tempo em que muitos, muitos mais
Sendo tão desiguais, são imortais

Talvez a inspiração volte a aparecer
Pra que possa falar, entusiasmado
Nas vozes femininas que a meu ver
Perfumaram de amor o nosso fado;
Berta Cardoso, Celeste, Beatriz
Lucília, Amália, fado de raiz

Argentina, Valejo, Nazaré
Maria Armanda e Maria da Fé
Maria Portugal, José da Guia
Leopoldina e Fernanda Maria;
Existem outras mais que foram santas
Existe fado em muito mais gargantas

Nomes de enorme grandeza
P'la nobreza, p'la firmeza
E p'la beleza maior
Consagrados justamente

Por quem sente ainda presente
Essa gente de valor;
Gente a quem o fado deve
O que teve e o que não teve
Em nome dum grande amor

Os nomes que não constam deste tributo são suficientes 
para muitos mais tributos!!!

Soneto para Eunice

Tributo de José Fernandes Castro

Quando se fala em magia teatral
E na sua tão enorme e mais valia
Também se fala de amor à poesia
Num elo de paixão intemporal

Quando se fala em magia teatral
E do brilho que tem cada momento
Também se fala daquele encantamento
Que sendo nosso, tem marca universal

GIL VICENTE sonhou e fez nascer
Esta forma de amar e de viver
Para que a arte de Talma se cumprisse

Os deuses teatrais reconheceram
Que p'lo muito que dela receberam
Quando se fala teatro... diz-se EUNICE

Carlos Conde

Tributo de José Fernandes Castro

O fado nasceu um dia
Nasceu, ninguém sabe aonde
Mas 'inda bem que nasceu;
Com ele trouxe a poesia
Que o enorme CARLOS CONDE
Como ninguém, escreveu

CARLOS CONDE era o poeta
Da saudade emoldurada
Pelas maiores emoções;
Um autêntico profeta
Com a vida dedicada 
Aos mais nobres corações

Vivem na nossa memória
Fados que o povo cantou 
Com sentimento e garganta
CARLOS CONDE, fez a história
Do fado que transformou 
A alma de quem o canta